TQS ou Eberick: qual aprender para cálculo estrutural?
Os dois calculam concreto armado pelas mesmas duas famílias de modelo — pórtico espacial alimentado por grelha de lajes, ou modelo integrado com tudo em um só processamento. A diferença prática está no porte que a licença cobre e no fluxo de trabalho: o Eberick tende a resolver melhor obra de pequeno e médio porte, e o TQS, edifício alto.
Esse ponto de partida contraria o que a discussão costuma sugerir. A escolha entre TQS e Eberick não é uma escolha entre métodos de cálculo diferentes — os dois oferecem as mesmas duas abordagens de análise global, com os mesmos compromissos. O que muda é o que cada sistema entrega em volta do cálculo, e a decisão que realmente importa acontece dentro do software, não entre eles.
TQS ou Eberick: qual a diferença em uma frase?
O TQS organiza a análise em seis modelos globais que o engenheiro escolhe explicitamente; o Eberick apresenta a mesma decisão em duas opções, dentro de um fluxo único de modelagem, dimensionamento e documentação.
Na prática, isso descreve duas filosofias de produto. Um sistema expõe o controle e cobra a decisão do usuário; o outro reduz a decisão a uma bifurcação e concentra o esforço no percurso do modelo até a prancha.
O que é o TQS e para que serve?
É um sistema brasileiro para projeto de estruturas de concreto armado e protendido, da TQS Informática, que cobre concepção, análise, dimensionamento, detalhamento de armaduras e emissão de pranchas no mesmo ambiente.
O que o caracteriza tecnicamente é a estrutura de modelos. Segundo a documentação oficial, o sistema oferece seis modelos globais, numerados de I a VI. Os modelos I, II e III existem mas não são recomendados para uso geral, e o modelo V permanece apenas por compatibilidade com projetos antigos. Os recomendados são o IV e o VI.
O modelo IV combina pórtico espacial com grelhas de piso: as ações verticais e horizontais são resolvidas em um único pórtico espacial de estado-limite último, e a carga das lajes chega às vigas por transferência automática das reações da grelha, com tratamento específico para vigas de transição e tirantes.
O modelo VI é a abordagem unificada — todos os esforços e deslocamentos saem de uma vez, sem transferência entre modelos, com lajes, vigas e pilares representados em um único pórtico espacial.
O que é o Eberick e para que serve?
É o software de projeto estrutural da AltoQi, construído em torno de um fluxo contínuo: o lançamento é feito em ambiente CAD, vira modelo BIM 3D, e desse mesmo modelo saem o dimensionamento, o detalhamento e a documentação.
Pela página oficial do produto, o programa dimensiona concreto armado, protendido e pré-moldado, alvenaria estrutural, perfis metálicos e núcleos rígidos. O fluxo OpenBIM é nativo, com importação e exportação em IFC, notas de colaboração em BCF e detecção de interferências entre disciplinas, além de geração automatizada de desenhos e memoriais.
Do lado da análise, a AltoQi organiza as opções de processamento em três estados-limite, o que dá uma visão precisa do que o programa calcula. Em estado-limite último, há análise estática linear, verificação de etapas construtivas para pré-moldados, dimensionamento dos elementos e verificação do limite de redistribuição em nós semirrígidos. Em deformações excessivas, deslocamentos do pórtico considerando fluência e fissuração, e deslocamentos das lajes. Em vibrações excessivas, análise dinâmica do pórtico e da grelha.
TQS vs Eberick: comparação lado a lado
| Critério | TQS | Eberick |
|---|---|---|
| Modelos de análise global | Seis modelos (I a VI); recomendados IV e VI | Dois: integrado, ou grelha com pórtico espacial |
| Modelo em duas etapas | Modelo IV: grelha de piso transfere reações ao pórtico espacial | Grelha 2D das lajes, depois reações no pórtico com pilares e vigas |
| Modelo unificado | Modelo VI: lajes, vigas e pilares em um único pórtico, sem transferências | Integrado: todas as barras de todos os pavimentos em um modelo espacial |
| Papel da laje no pórtico | Diafragma rígido; no modelo VI, participa fisicamente do pórtico | No integrado, participa da estabilidade global |
| Esforços de temperatura e retração | — | Calculáveis no modelo integrado |
| Análise dinâmica | Disponível conforme o modelo adotado | Pórtico e grelha; para a estrutura toda, só no integrado |
| Flecha iterativa de lajes | — | Indisponível no modelo integrado |
| Materiais dimensionados | Concreto armado e protendido | Concreto armado, protendido e pré-moldado, alvenaria estrutural, perfis metálicos, núcleos rígidos |
| Fluxo BIM | Interoperabilidade por IFC e plug-ins | OpenBIM nativo: IFC, BCF e detecção de interferências |
| Planos publicados | Assinatura mensal por porte de estrutura | Cinco planos, do Demo gratuito ao Infinity, de R$ 239,50 a R$ 1.199,50 |
Duas ressalvas honestas sobre esta tabela.
A primeira: os traços na coluna do TQS não significam que o sistema não faça aquilo — significam que a documentação consultada não trata do item nos mesmos termos. Comparar softwares por ausência de menção é um erro comum, e este artigo prefere declarar o limite a preencher a lacuna com suposição.
A segunda: as linhas que descrevem a análise mostram convergência, não divergência. Os dois sistemas oferecem a mesma escolha de fundo — separar a análise das lajes da análise global, ou unificar tudo. É a mesma decisão de engenharia, com nomes comerciais diferentes.
O que muda no resultado ao escolher o modelo de análise?
Muda mais do que trocar de software — e é por isso que essa é a decisão que merece o estudo, não a marca.
No modelo em duas etapas (grelha de lajes alimentando o pórtico espacial), os painéis de laje são analisados isoladamente em um modelo bidimensional, e só as reações seguem para o pórtico com pilares e vigas. A vantagem é o custo computacional menor e a estabilidade do processo.
No modelo integrado ou unificado, todas as barras de todos os pavimentos entram em um único modelo espacial e os esforços saem de uma vez. As lajes passam a participar da estabilidade global, e no TQS o modelo VI permite que elas recebam esforços de carregamentos horizontais, em vez de atuarem apenas como diafragma rígido.
Os compromissos são declarados pelos próprios fabricantes, e são o dado mais útil deste artigo. Segundo o suporte da AltoQi:
- Só o modelo integrado considera as lajes na análise de estabilidade global.
- Só o modelo integrado permite calcular esforços de temperatura e retração.
- A análise dinâmica de toda a estrutura está disponível apenas no modelo integrado.
- O cálculo iterativo de flechas em lajes funciona apenas no modelo separado.
- O modelo integrado consome mais recursos e processa mais devagar.
Repare no terceiro e no quarto item juntos: não existe modelo que vença em tudo. Quem precisa de análise dinâmica global e quem precisa de flecha iterativa de laje estão escolhendo caminhos opostos — e essa é uma decisão de projeto, não de preferência.
Do lado do TQS, a documentação do pórtico espacial descreve o mesmo par de compromissos por outro vocabulário: no modelo IV, as cargas das lajes chegam às vigas como cargas concentradas calculadas pela grelha de cada pavimento, o que permite distribuição mais precisa; no modelo VI, as lajes integram fisicamente o pórtico, oferecendo simulação mais realista do comportamento conjunto. A grelha continua necessária para calcular reações que alimentam o pórtico.
TQS ou Eberick para projeto residencial e de pequeno porte?
Eberick, na maior parte dos casos — e o motivo principal não é o cálculo, é o percurso até a prancha.
Em residência, sobrado e prédio de poucos pavimentos, a estrutura raramente exige a análise mais sofisticada disponível. O que consome o tempo do projetista é outra coisa: lançar rápido, revisar quando o arquitetônico muda e emitir documentação limpa. O fluxo do Eberick é montado exatamente nesse eixo, com o mesmo modelo servindo à modelagem, ao dimensionamento, ao detalhamento e à documentação.
O plano de entrada também acompanha esse porte, e há uma versão Demo gratuita para conhecer a interface antes de decidir.
Vale um alerta técnico que vale para os dois: obra pequena não autoriza modelo simplificado por conta própria. Escolher o modelo de análise continua sendo decisão do engenheiro responsável, e o porte reduzido diminui a consequência do erro, não o erro.
Para esse perfil de trabalho, a Tesla Treinamentos tem um curso de Eberick de 60 horas que percorre o básico ao avançado com dois projetos completos — um sobrado e um edifício de cinco pavimentos.
TQS ou Eberick para edifício de múltiplos pavimentos?
TQS, à medida que a altura cresce. A razão está na granularidade do controle sobre a análise global.
Em edifício alto, o comportamento que decide o projeto é o conjunto: como o vento solicita a estrutura, como o núcleo rígido participa, como as lajes contribuem para a rigidez do pavimento e como os esforços migram entre pórticos. Ter seis modelos globais documentados, com dois recomendados e diferenças explícitas entre eles, é uma vantagem para quem precisa justificar tecnicamente a escolha feita — em memorial, em revisão de projeto e em discussão com o contratante.
O Eberick também alcança esse território pelo Infinity, o mais alto dos cinco planos publicados, e dimensiona núcleos rígidos. A diferença aparece na ponta mais alta da escala e no grau de exposição do processo de análise, não em uma suposta superioridade de cálculo.
O curso de TQS da Tesla Treinamentos tem 60 horas e cobre o fluxo completo, da concepção estrutural à montagem das pranchas.
Qual escolher: guia rápido por perfil
- Escritório de residencial e prédios de poucos pavimentos — Eberick. O fluxo contínuo até a documentação é o que economiza tempo nesse porte.
- Carteira de edifícios verticais e estruturas de grande porte — TQS. O controle explícito sobre o modelo global é o diferencial quando a análise precisa ser justificada.
- Projeto que exige esforços de temperatura e retração — modelo integrado, no Eberick. É uma capacidade declarada dele.
- Projeto em que a flecha de laje é o critério crítico — modelo separado, com grelha. O cálculo iterativo de flechas não roda no integrado.
- Quem trabalha com pré-moldado, alvenaria estrutural ou perfis metálicos junto do concreto — Eberick, pela abrangência de tipologias no mesmo programa.
- Quem vai ser contratado por um escritório — o que o escritório usa. Nenhuma vantagem técnica compensa entrar sem saber operar o sistema em que a equipe trabalha.
Antes de qualquer um dos dois, vale entender o comportamento da estrutura sem a camada de automação por cima: o curso de FTOOL da Tesla Treinamentos tem 15 horas e trabalha pórticos, vigas e treliças — a base que torna o resultado do software conferível em vez de aceito.
Fontes
- Modelos estruturais do TQS — visão geral (página consultada em 10 de agosto de 2026)
- Pórtico Espacial — documentação do TQS (página consultada em 10 de agosto de 2026)
- Como optar entre o modelo de análise integrado ou de grelha com pórtico espacial (página consultada em 10 de agosto de 2026)
- Quais opções de análise ao processar uma estrutura no AltoQi Eberick? (página consultada em 10 de agosto de 2026)
- AltoQi Eberick — software para projetos estruturais (página consultada em 10 de agosto de 2026)